

Em: 13/10/16
Conexão Cósmica
A busca por significado para nossa existência sempre foi um dos grandes tópicos discutidos ao decorrer da história humana. Na procura por respostas às perguntas: “de onde viemos?” e “para onde vamos?”, diversas religiões e escolas de pensamento tentaram, de inúmeras maneiras, explicar qual seria a nossa origem e o nosso fim.
Certamente, a mais famosa hoje, no mundo ocidental, é a origem dada pelo livro de Gênesis, no antigo testamento da bíblia cristã. Segundo essa crença, Deus teria criado o universo e tudo que nele se encontra em seis dias, tendo descansado no sétimo dia. O primeiro homem, Adão, teria sido moldado a partir do barro como a imagem e semelhança de Deus, seu criador. E a mulher, Eva, criada a partir de uma costela de Adão, uma vez que Deus havia percebido que o mesmo estaria só.
Já segundo a crença vietnamita, Âu Cơ, uma fada imortal da montanha, teria se casado com Lac Long Quân, e depositado um saco de ovos de onde nasceram cem crianças, as quais seriam ancestrais do povo vietnamita.
Pode-se dizer que existe um mito de criação diferente para cada cultura, na tentativa de explicar a origem do ser humano e, muitas vezes, do universo. Alguns bastante similares, enquanto outros, bastantes distintos tanto em entidades envolvidas, quanto em modos de criação. Devemos observar, contudo, que tais mitos foram criados levando em conta as características de cada cultura, suas crenças e vivências. Os criadores dos mitos, embora mitos sejam passados e cultivados ao longo de gerações, estiveram presos ao seu tempo e ao mundo que estes observavam.
Hoje, contudo, chegamos a um momento em nossa história que mitos, baseados em nosso limitado aparato biológico de observação do cotidiano, podem receber uma atualização ou uma teoria geral.
A teoria mais aceita, hoje, sobre a origem do universo nos diz que, por volta de 14 bilhões de anos atrás, um evento chamado Big Bang, teria dado origem ao universo na versão como o conhecemos. Os átomos que dão origem à matéria foram criados em processos subsequentes ao Big Bang. Átomos mais leves e simples, como Hidrogênio, e partes do Hélio e Lítio, teriam sido formados nos primeiros instantes após a grande explosão. Átomos são formados por 3 constituíntes: prótons (que possuem carga positiva), elétrons (que possuem carga negativa), e nêutrons (que, como o nome sugere, possuem carga neutra). Juntando um próton, um nêutron e um elétron orbitando o núcleo (formado pelo próton e nêutron), nós temos um átomo de Hidrogênio. Se juntarmos dois prótons, dois nêutrons e 2 elétrons orbitando estes, temos um átomo de Hélio. Três prótons, 4 nêutrons e 3 elétrons dão origem a um átomo de Lítio. E assim vamos adicionando prótons, nêutrons e elétrons pelo caminho até o elemento mais pesado que conhecemos, o Urânio, com 92 prótons, 146 nêutrons e 92 elétrons.
Elementos leves como hidrogênio e parte do hélio foram criados logo após a grande explosão. Átomos mais pesados, contudo, não foram formados desta forma. Para a fusão de núcleos mais pesados, ou seja, com números maiores de prótons e nêutrons, grandes pressões e temperaturas são necessárias afim de que a repulsão entre os núcleos seja vencida. Condições essas que muitas vezes fogem nossa escala de compreensão. Tais condições podem ser encontradas nas grandes fornalhas do universo: as estrelas.
A fusão nuclear que ocorre no núcleo de estrelas pode dar origem a átomos mais pesados, do Lítio ao Ferro. Quanto mais massiva a estrela, mais pesado o elemento que esta é capaz de dar origem. Contudo, estrelas capazes de dar origem a elementos mais pesados do que o Oxigênio são tão massivas que, eventualmente, ao final de sua vida, morrem em grandes explosões, chamadas de Supernovas. Tais explosões liberam quantidades inimagináveis de energia, o que possibilita que os elementos mais pesados que o Ferro - indo até o Urânio - sejam criados nesses eventos. Com tais explosões, os elementos criados são expalhados pelo Cosmo, onde, eventualmente, podem terminar fazerendo parte de núvens de gás e poeira que, um dia, podem dar origem à sistemas solares.
Foi em uma dessas nuvens de gás e poeira que o nosso sistema solar se originou. Os átomos que se formaram no Big Bang, junto daqueles que foram forjados nas fornalhas de estrelas que queimavam seus estoques de hidrogênio, liberando fótons e calor - e produzindo elementos mais pesados no processo - se uniram e formaram os planetas e o Sol que hoje conhecemos. Nós mesmos somos constituídos pelos mesmos átomos que foram forjados por esses processos. O oxigênio que respiramos, que encontramos conjugado com átomos de hidrogênio na água que bebemos; o magnésio, que é essencial para a replicação de nosso DNA; o cálcio, que forma nossos dentes e ossos; o carbono, que é a base da vida como conhecemos. Todos foram formados por tais eventos cósmicos.
Parafraseando o grande astrônomo e divulgador da ciência do século XX, Carl Sagan:
“O NITROGÊNIO em nosso DNA. O CÁLCIO em nossos dentes. O FERRO em nosso sangue. O CARBONO em nossas tortas de maçã. Todos foram criados no interior de estrelas em colapso. Somos feitos do mesmo material das estrelas.” Carl Sagan
Para mim, pensar em tal conexão cósmica com todas as formas de vida e estruturas do universo, demonstra-se uma das mais poderosas experiências que podemos vivenciar.
Fontes consultadas e sugestões de leitura
http://www.bibliotecapleyades.net/ciencia/ciencia_originelements.htm
http://www.physicsoftheuniverse.com/cosmological.html
https://www.aps.org/publications/apsnews/200804/physicshistory.cfm
Texto: Maikel Gaitkoski
Aluno de Graduação do Curso de Biotecnologia
Universidade Federal do Pampa- São Gabriel-RS





