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Dietas equilibradas

Estudo revela dietas onívoro/generalistas e porque a prática de envenenamento e perseguições sobre os canídeos sob a justificativa de predação de criações domésticas não se justifica

      Milhões de animais morrem todos os dias vítimas de atropelamento nas rodovias brasileiras, sendo essa uma das principais ameaças para muitas espécies. Apesar de trágico, estes animais podem se tornar uma fonte de informações para estudos com diferentes propósitos, como anatomia, parasitologia, genética e ecologia.

      Pensando nisso, pesquisadores do Laboratório de Biologia de Mamíferos e Aves (LABIMAVE) e do Laboratório de Estudos em Biodiversidade Pampiana (LEBIP), da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) vem recolhendo e estudando a ecologia de diversas espécies da região do Pampa no sul do Brasil. O foco de um destes estudos foi conhecer a ecologia trófica de mamíferos carnívoros, ou seja, entender do que as espécies se alimentam e como elas compartilham os recursos. A pesquisa completa foi publicada na revista científica Journal of Zoology, da Inglaterra.

Uma família especial

   A Ordem Carnivora compreende mamíferos originalmente adaptados ao hábito predatório, que ao longo de sua historia evolutiva se diversificaram em linhagens com diferentes morfologias, fisiologias e hábitos. Os carnívoros são subdidividos em diversas famílias, sendo uma delas a Canidae. Os integrantes desta família, os canídeos, podem ser caracterizados por possuírem corpo delgado, músculos bem desenvolvidos e flexíveis, além de pernas longas e finas, próprias para andar muito. 

      Há cerca de 35 espécies de canídeos no mundo, incluindo lobos, raposas, graxains e até mesmo um de nossos animais domésticos mais comuns, os cães. Três espécies de canídeos silvestres ocorrem na região do Pampa brasileiro, o graxaim-do-campo, ou zorro (“sorro”) (Lycalopex gymnocercus), o graxaim-do-mato (Cerdocyon thous) e o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). Infelizmente a situação do lobo-guará não se encontra nada boa, já que nas últimas décadas a espécie foi avistada raríssimas vezes no estado do Rio Grande do Sul. Com isso o foco do trabalho foi nas duas primeiras.

Para saber mais sobre a atual situação do logo-guará no sul do Brasil, acesse:
https://www.youtube.com/watch?v=g6vtTvglySk

     Ainda relativamente comuns na região do Pampa, o graxaim-do-campo e o graxaim-do-mato apresentam certa tolerância a alterações no ambiente, podendo ser encontrados em áreas cultivadas e até próximos a áreas urbanizadas. Porém são os moradores de áreas rurais que costumam ver estes animais nos campos ou nas matas com mais facilidade, geralmente vistos sozinhos ou em pares (casais). Apesar de parecidos em forma e tamanho, é possível diferenciá-los reparando algumas características, especialmente coloração das patas e do dorso.

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Quem come o que?

      Ao longo de três anos foram coletados 58 animais atropelados nas rodovias do estado. Os restos de alimento em seus estômagos eram separados no laboratório, onde pelos, ossos, penas, dentes, frutos e insetos puderam ser identificados para descrever a dieta destas espécies.

      No total foram encontrados 80 tipos diferentes de alimentos. Agrupadas em grandes categorias foi possível ver que mamíferos, invertebrados e frutos foram os itens mais frequentes na dieta dos dois canídeos.

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      Ambos canídeos podem ser considerados onívoro/generalistas, o que significa que consumem um grande número de presas em proporções relativamente similares. Porém, alguns itens se destacaram um pouco mais na dieta do graxaim-do-mato, como frutos de jerivá (Syagrus romanzoffiana), besouros, anfíbios do gênero Leptodactylus e preás (Cavia aperea).

      Aliás, preás foram importantes na dieta do graxaim-do-campo também. Esse é um roedor muito comum de ser visto em beira de estradas, sendo tolerante a alguns distúrbios ambientais como o movimento constante dos carros, por exemplo. Como tem atividade crepuscular e está presente desde campos abertos a bordas de banhados, se torna presa fácil para os canídeos.

      Outros itens se mostraram mais importantes na dieta do graxaim-do-campo, como insetos do grupo dos gafanhotos e besouros. É interessante que o consumo de invertebrados pelos canídeos pode ser importante especialmente em períodos com menor disponibilidade de itens que fornecem mais energia, como frutos e vertebrados. Apesar de representarem pouca biomassa, são consumidos em grande quantidade, representando uma fonte de nutrientes para tempos mais difíceis.

Justiça seja feita

   Estes canídeos são continuamente ameaçados por práticas como caça e envenenamento. Tais práticas são feitas sob a alegação de que estariam prevenindo ou retaliando supostos ataques a animais domésticos, como ovelhas. Porém, este estudo mostrou que a dieta de ambos foi constituída em grande parte por fauna silvestre e itens vegetais. Restos de ovelha não foram encontrados na dieta do graxaim-do-mato e compuseram apenas 2.1% dos itens consumidos pelo graxaim-do-campo. Resultados semelhantes são encontrados em estudos em outras regiões onde as espécies ocorrem. Vale ressaltar que eles também se alimentam da carcaça de animais já encontrados mortos, podendo levar injustamente a culpa de os terem matado.

     Apesar desses baixos índices, proprietários rurais seguem intolerantes a estes animais. Esta atitude não considera os benefícios da presença destes, como a predação sobre espécies exóticas como a lebre-europeia, além de animais peçonhentos como a cruzeira, serpente responsável por 80% dos acidentes com serpentes no Rio Grande do Sul.

     Como carnívoros que são, possuem também uma grande importância ecológica, já que regulam as populações de suas presas e assim influenciam na dinâmica de todo ecossistema onde estão inseridos. Além disso, ambos são legítimos dispersores de sementes, aumentando a distância de dispersão para diversas espécies de frutos nativos do Pampa.

Link do artigo completo

Texto

Raissa P. M. 

Laboratório de Biologia de Mamíferos e Aves

Universidade Federal do Pampa

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