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Em: 26/09/2016
“Papagaio fala, periquito leva a fama”: o paradoxo da Saúde

Algo que tem me incomodado cada vez mais é escutar declarações como “se recuperou muito bem da cirurgia, graças a deus”, ou a “o tratamento para o câncer está funcionando, graças a deus” e outras expressões semelhantes. Pode parecer excesso de preciosismo ou má vontade com a igreja, mas não é! Isso mostra o quanto estão incrustrados em nossas mentes um culto arraigado de adoração e agradecimento a esta figura de divindade que no ocidente é chamada apenas de “Deus”. Só uma reflexão sobre esta questão já renderia um texto. Que deus é esse? O mesmo deus do Islamismo? Ou um dos deuses nórdicos ou das tradições africanas? Mas enfim, não é isso que quero tratar aqui.

O que quero tratar aqui é daquilo que considero um desrespeito à ciência. Por mais inocente que seja a frase, inconsciente até (fruto de uma educação completamente dominada pelos preceitos do cristianismo) trata-se de uma desvalorização dos profissionais que estudaram anos para aprimorar suas técnicas e procedimentos. No fundo, este tipo de frase reflete o não reconhecimento dos avanços da ciência, que revolucionaram a saúde pública, a expectativa de vida e o modo de vida da sociedade.

Existe uma frase que diz “não existe Ateu em um avião caindo”. Eu digo: “Não existe crente quando estamos realmente doentes”. Bem... ok, até existe... Mas eles morrem cedo... Dizem que Bob Marley morreu por se recusar a receber uma transfusão sanguínea, em função de seus dogmas religiosos. Mais uma vez, faço questão de deixar claro que não quero que ninguém deixe de acreditar no que quer que seja. Só quero que as pessoas deem o devido crédito a quem realmente merece. No caso específico da medicina, quero que as pessoas deem o devido crédito aos avanços científicos que permitiram que entendêssemos a doença e a curássemos.

Nosso avanço em ciência é notável. Da descoberta da vacina no final do século XVIII, passando a entendimento da importância da assepsia em meados do século XIX, e da necessidade do tratamento da água para nosso consumo no início do século XX, só podemos agradecer aos cientistas pela melhoria de nossa qualidade de vida. Ainda assim, em 1900 (pouco mais de 100 anos atrás) a expectativa de vida dos brasileiros era de 33 anos. Em 1928 pesquisadores descobriram um produto antibiótico derivado de um fungo do gênero Penicillium, que uma década mais tarde daria origem a um dos primeiros antibióticos de amplo espectro a serem largamente utilizados: a Penicilina. Em 1960 a expectativa de vida já era de 48 anos, e hoje chega aos 75 anos. Será que devemos dar “graças a deus” por esta melhora em nossa qualidade de vida? Será que este deus está mais satisfeito com a humanidade agora do que 200 anos atrás, e por isso está nos deixando viver mais?

Alguns podem alegar que só conseguimos atingir estas descobertas porque deus permitiu. Será? Por que ele só permitiu que a ciência avançasse a partir de meados do século XVIII? Não, não é por acaso que a ciência praticamente não avançou durante o feudalismo e durante o monarquismo (um período de 1200 anos) onde a igreja cristã detinha enorme poder, sobretudo sobre o conhecimento. Durante este período, conhecido como a “idade das trevas”, foram cometidas algumas das maiores atrocidades da história da humanidade, o que inclui a caça as bruxas, a inquisição e as cruzadas (que nada mais eram do que genocídios). Durante este período o conhecimento científico não só foi deixado de lado como foi suprimido. Afinal, conhecimento é poder!

No final, como de costume, desviei do tema principal do texto. Agradecer “a deus” pelo sucesso de uma cirurgia ou tratamento médico é como agradecer a deus por ser o único sobrevivente de um trágico acidente. Você agradeceria a um sádico que matasse dezenas de pessoas e deixasse somente você vivo? Se você conseguir sua “cura” rezando ou após um culto, agradeça ao seu deus. Mas se você sair de um hospital, onde foi tratado por pessoas e remédios, agradeça a estas pessoas e tenha consciência da ciência (como perdão da redundância) por trás disso. 

Isso vale para a bondade humana. Pessoas ajudam pessoas. Pessoas fazem políticas de ajuda humanitária ou de desarmamento nuclear. Não existe destino, não existem seres mágicos controlando nossas vidas. Se somos bons ou maus, somos por nossas escolhas e atitudes.

Luis Pasteur (esquerda) um dos primeiros a demonstrar o papel dos microorganismos no desenvolvimento de doenças e enfermidades (que era um cristão fervoroso, diga-se); e Alexander Fleming (direita) descobridor da Penicilina (ganhador do Nobel em Medicina).

Texto: Carlos Benhur Kasper

Professor de Biologia

Unipampa São Gabriel

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