

Em: 27/03/2017
Por que investir em conservação enquanto pessoas passam fome?
Agora a pouco, passando pelos corredores da universidade escutei dois alunos (dos bons, diga-se de passagem) discutindo sobre por que investir dinheiro na preservação do urso-panda na China, enquanto pessoas morrem de fome na África... Embora tenha ficado chocado em escutar isso no ambiente acadêmico, pelo menos fiquei em parte feliz por perceber que existe este tipo de discussão entre os acadêmicos. Para ser completamente sincero não sei se era exatamente essa a discussão, mas o fato é que já vi e ouvi questionamento deste tipo... Coisas como: “Por que viajar para Marte se temos pessoas morrendo de fome na Terra?”... E me incomodo profundamente com isso!
O primeiro ponto é que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Preservação ambiental não é fonte de miséria, nem está relacionada a ela. Por isso não pode, ou não deveria ser relacionada. O que leva uma espécie a necessitar de medidas de conservação tem (provavelmente) a mesma origem que a miséria: a necessidade infinita de acumular e gerar cada vez mais lucro, independente de quem esteja sendo prejudicado (pessoas ou outros animais). Isso se chama capitalismo, ou pelo menos a faceta suja dele. Essa necessidade faz com que existam enormes desigualdades ao redor do globo, com alguns poucos países concentrando toda a riqueza mundial enquanto a enorme maioria vive abaixo da linha da miséria. Isso se reflete de uma forma muito semelhante entre a população, com alguns pouquíssimos muito ricos e uma enorme população miserável. O capitalismo gera isso! Propõe isso apregoando a falsa ideia de que qualquer um é capaz de alcançar a riqueza, dependendo apenas da força de vontade e da sua dedicação! MENTIRA! Mas deixamos isso de lado por enquanto.
O segundo ponto diz respeito ao direcionamento de recursos. É justo ou ético direcionar dinheiro para preservação de espécies animais e plantas enquanto indivíduos de nossa própria espécie morrem de fome? Em uma análise simplista a resposta é “não”. Questões humanitárias deveriam ser consideradas prioritárias sempre. Mas a questão é: QUEM DEVE PAGAR A CONTA? Os outros animais e plantas que também estão morrendo basicamente pelo mesmo motivo? Ou devemos buscar a compensação para salvar a humanidade e salvar o restante da biota, na origem do problema?
Questionar o direcionamento dos recursos investidos em conservação (ou ciência de modo geral) porque humanos estão morrendo é mais ou menos o mesmo que questionar direcionamento de dinheiro para educação enquanto a saúde vai mal. Ambos são importantes! Ambos são essenciais! Devemos questionar a verba destinada ao pagamento da dívida externa dos países. Devemos questionar os juros que amarram países e pessoas a dívidas impagáveis, enquanto algumas pessoas (porque por trás de bancos existem banqueiros) ficam bilionárias! E, mais do que tudo: devemos questionar a destinação de verba à indústria da guerra! Com o que Estados Unidos, Rússia ou China investem em armas e defesa, poderíamos resolver a fome no mundo em um piscar de olhos. E mais: se cada país destinasse uma parte de sua produção agrícola para combater a fome no mundo, ao invés de lucrar bilhões e bilhões (“agro é pop – agro é tudo”) poderíamos acabar com esta injustiça humanitária.
Por fim, conservação ambiental gera qualidade de vida. O turismo para visualização de gorilas na África gera milhares de dólares para comunidade em empregos com guias, motoristas, restaurantes, hotéis, feiras, etc. O mesmo poderia ser feito com os referidos ursos-panda do início deste texto. Podemos questionar se é efetivo traçar estratégias de conservação baseadas em espécies bandeiras. Talvez seja muito mais efetivo preservar ambientes e tentar integrar comunidades às estratégias de conservação. Isso também é feito, aliás. Diversas cidades vivem do turismo associado a unidades de conservação, como Cambará do Sul, aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo.
Poderíamos pensar então na questão da exploração espacial. Que tremendo desperdício de dinheiro, não é!? Não! Definitivamente não! A rede de satélites que nos ajuda monitorar o planeta, permitindo nos anteciparmos a furacões, por exemplo, é derivada da exploração do espaço. Se hoje temos um sistema de comunicação instantânea é fruto desta exploração. Câmeras fotográficas miniaturizadas, viagens de avião infinitamente mais seguras, tecnologia LED, e muito, muito mais. Isso necessitaria de uma postagem inteira só para abordar este assunto.
Vamos pensar e discutir um pouco mais a fundo nossos problemas e necessidades! Os parcos recursos destinados a um fim nobre como a conservação não podem ser questionados em função de outras necessidades. Precisamos enfrentar todas as frentes de desigualdade. Lutemos pelo fim da fome. Lutemos pela preservação ambiental. Lutemos pelos animais ameaçados de extinção. Uma coisa não pode impedir a outra! À luta todos!
Texto: Carlos Benhur Kasper
Professor de Biologia
Unipampa São Gabriel





