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TRICOLOGIA

Identificando mamíferos através da análise microscópica de seus pelos

A tricologia é o ramo da mastozoologia (área da Biologia que estuda os mamíferos) que analisa a estrutura dos pelos (do grego, thricos = pelo e logos = ciência). Os pelos são anexos da pele formados basicamente por uma proteína chamada queratina que é exclusiva destes animais.

Historicamente o pelo dos mamíferos tem um importante papel na sociedade humana, principalmente na indústria de fabricação têxtil. No início do século XX, quando a caça era mais aceita pela sociedade, a tricologia era utilizada na autenticação de casacos de pele.

Leon Augustus Hausman (considerado o “pai da tricologia”) deu início em 1920 ao estudo da estrutura dos pelos como caráter para diferenciação entre as espécies de mamíferos e publicou uma série de trabalhos propondo nomenclatura, classificações e técnicas, que serviram de base para pesquisas posteriores.

Tipos de pelo

Os pelos podem ser divididos em duas grandes categorias: os pelos-guarda e os subpelos. Os pelos-guarda são os mais longos, que se sobressaem na pelagem e apresentam a coloração que produz o padrão da pelagem do animal. Eles possuem duas regiões morfologicamente distintas: (i) a haste, região localizada logo após o bulbo (base) do pelo, podendo ser ondulada (pelos-guarda primários) ou lisa (pelos-guarda secundários) e (ii) o escudo, região que vai desde a haste até o ápice do pelo, em geral liso, maior e mais largo que a haste.

Já os subpelos são mais numerosos, mais ondulados e mais curtos, contribuindo para a termorregulação (manutenção da temperatura) do corpo e proteção contra a penetração de água, formando um emaranhado que retém espaços de ar, que é o que proporciona de fato o isolamento térmico.

Em geral os pelos apresentam três camadas: a cutícula (mais externa), o córtex (intermediário) e a medula (mais interna). A combinação dos padrões morfológicos da cutícula e da medula combinados confere características úteis para a identificação das espécies. Na maioria dos casos, os pelos utilizados para este tipo de trabalho são os pelos-guarda, por possuírem menor sobreposição das características entre espécies.

Existem ainda pelos modificados em espinhos que, dado sua robustez e por serem pontiagudos, tem a função de proteção contra ataques de predadores. Um outro tipo de pelo chamado de aristiforme é menos robusto, ficando num meio termo entre os espinhos e os pelos guarda.

A)Tipos de pelo: pelos guardas primários (I),secundários (II) e subpelo (III);

B) corte evidenciando as três camadas que compõe ospelos: medula (IV), córtex(V), cutícula (VI);

C) pelo aristiforme (VII) e espinho(VIII). (Fonte: Modificado de Duarte 2013).

Como se estudam os pelos?

A identificação de espécies através da avaliação da estrutura microscópica de seus pelos é uma ferramenta simples, rápida e de baixo custo, permitindo que seja aplicada em diversos estudos.Vários métodos para a visualização da medula e cutícula dos pelos dos mamíferos já foram desenvolvidos e aperfeiçoados por diversos pesquisadores, cada qual produzindo bons resultados e com suas vantagens e desvantagens.

A maioria dos métodos utilizados na visualização da cutícula em microscopia óptica tem por objetivo obter uma impressão das escamas cuticulares sobre uma camada de um meio gelatinoso, como esmalte incolor. Por outro lado, os procedimentos de preparo dos pelos para visualização da medula consistem basicamente no clareamento do pelo, com água oxigenada comercial e pó descolorante, por exemplo.

Foto dos materiais que podem ser utilizados na preparação dos pelos: água oxigenada, pó descolorante, esmalte, lâminas, lamínulas, pinça e papel.

Medula de um pelo-guarda vista em aumento de 400x no microscópio,  após ter sido descolorido.

Impressão da cutícula de um pelo-guarda em esmalte, vista em aumento de 400x no microscópio.

Mas para quê serve a tricologia?

Como a queratina dos pelos lhes confere grande resistência, é possível comparar pelos com diferentes origens, como espécimes de museus, amostras fecais, e conteúdos estomacais, independentemente dos processos químicos (taxidermia e digestão) e mecânicos (mastigação e intemperismo) aos quais tenham sido submetidos, não comprometendo assim sua identificação.

Os pelos encontrados no ambiente, presos à vegetação, entradas de tocas, cercas ou locais de repouso de mamíferos podem ser identificados, auxiliando em levantamentos de fauna, além de ser um método não invasivo, ou seja, não demanda a captura do animal.

O estudo da dieta de predadores pode ser realizado através da análise de conteúdos gastrointestinais ou de amostras fecais. Geralmente restam apenas as partes não digeríveis das presas, como ossos, dentes ou pelos. Soma-se ainda a necessidade de identificar o “autor” da amostra, no caso das fezes. Métodos mais sofisticados de análise, como a extração de ácidos biliares ou identificação por meio do DNA das células da mucosa intestinal presentes no muco que reveste as fezes são mais caros e difíceis, além de demandarem equipamentos bastante tecnológicos. Como alternativa a identificação das presas pode ser feita por meio da tricologia. Devido ao comportamento de auto-limpeza, mamíferos acabam ingerindo alguns de seus próprios pelos, os quais podem ser eliminados nas fezes deixando uma assinatura da espécie "autora" da amostra.

Amostra de pelos de roedor encontrados em conteúdo estomacal de um felino.

Sob o aspecto legal, a identificação dos pelos pode auxiliar em investigações criminais. Os pelos são mais resistentes à putrefação do que os tecidos moles, mantendo suas características ao longo do tempo, tendo aplicação na Ciência Forense. Dentre as evidências encontradas na cena de um crime os pelos são frequentemente os mais encontrados, devido à constante queda provocada pelo ciclo de crescimento, sendo esta uma evidência física útil para demonstrar a associação entre um suspeito e a vítima, ou eliminar esta hipótese. Apoiada por tecnologias como a análise de DNA, que proporciona resultados de alta confiabilidade, a análise tricológica pode se tornar uma prova em julgamentos. Em países como os Estados Unidos, onde o método é mais tradicional do que no Brasil, ela possui ampla aceitação em tribunais.

A tricologia ainda pode ser aplicada na identificação de partes animais comercializadas ilegalmente, auxiliando na identificação da espécie à qual pertence a pele ou outros restos do animal quando apreendido.

Outra área de aplicação da tricologia é na análise de matérias estranhas contaminantes de alimentos. Protocolos de pesquisa de sujidades estabelecidos por órgãos internacionais como a Food and Drug Administration (FDA) ou a Association of Analytical Chemistry (AOAC) e nacionais como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), incluem o diagnóstico da presença de pelos nos alimentos.

Fontes consultadas e sugestões de leitura

 

Duarte, T. de S. 2013. Micromorfologia de pelos aristiformes de roedores das Famílias Cricetidae e Echimyidae (Mammalia, Rodentia). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Viçosa. Minas Gerais.

 

Miranda, G. H. B. de; Flavio H. G. R. & Adriano P. P. 2014. Guia de identificação de pelos de mamíferos brasileiros. Brasília: ciências forenses. 109 p.

 

Quadros, J. 2002. Identificação microscópica de pelos de mamíferos brasileiros e sua aplicação no estudo da dieta de carnívoros. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Paraná. Paraná.

 

Silveira, F.; Navarro, M. A.; Monteiro, P. K. A.; Quadros, J. & Monteiro-Filho, E. L. De A. 2013. Proposta de utilização da microestrutura de pelos-guarda para fins de estudos forenses e no controle de qualidade de alimentos. Revista Brasileira de Criminalística 2(1): 32-41.

Texto

Raissa Prior Migliorini

Laboratório de Biologia de Mamíferos e Aves

Universidade Federal do Pampa

Em 19/08/2016

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